Saturday, January 09, 2010

Onírica

O segredo mais secreto de todos que carrego comigo, nos últimos tempos, é que não vivo mais aqui, neste mundo que todos conhecemos. Aqui deixo apenas um tipo de holograma, capaz de executar as tarefas cotidianas. É apenas esta imagem que trabalha, vagueia pelas ruas, faz compras, empurra os móveis, atende o telefone. Quando, eventualmente, eu venho para cá, choro e me sinto só. Meu holograma consegue lidar com o corriqueiro, ele ri, cumpre suas obrigações e até briga, vez por outra, quando percebe algo injusto ou com o qual ele não concorda.

Enquanto isso, eu permaneço no mundo sem tempo, onde descubro mais e mais coisas a cada olhar curioso sobre as pequenas flores e as borboletas. Talvez eu não tenha conseguido "ser telúrica", como a Baby, mas com certeza "sou onírica", como era desde o primeiro choro ao nascer e através dos sonhos e pesadelos que construíram toda a minha infância. Não sou daqui, mas nem diria que sou de lugar nenhum. Sou de lá... De onde os sonhos brotam e viajam pelas brechas do tempo para aportarem em nossas camas, toda noite, a noite inteira.

Eu pertenço aos sonhos. Lá é o lugar a que pertenço. Como bolhas de sabão crescendo indefinidamente e ocupando tudo em volta, assim sinto meu corpo entrar no mundo dos sonhos. Pé ante pé tento manter-me centrada, mas meu centro gira... Meu centro roda em volta as luzes coloridas e se transforma em aquarela.

Estrangeira, alienígena, incompatível, inadequada. Sempre disfarcei muito bem! Para os que pensam que me conhecem, nem há sombra do conhecimento para mim mesma. Prefiro ser holograma que já conheço e que todos já estão acostumados. Ser eu mesma é sofrido e trabalhoso e humanamente impossível do lado de cá, já que não é muito humano. "É por aqui que eu saio!" como sonâmbula ou como Alice... Na verdade, não houve mudança, continuo andando dormindo por aí, desde criança, e não quero acordar.



A imagem maravilhosa veio daqui e eu acho que não quero mais sair de dentro deste blog :-)

7 comments:

rosana sperotto said...

Ô Cláudia, sabe aqueles textos que a gente gostaria de ter escrito e fica se dizendo: sim, é isso mesmo, eu também percebo assim...? Porque também sou "onírica", e morro de medo de deixar de ser, colori a alma em cada frase, embalei o coração com aquela sensação gostosa tipo: ai, que bom, ela me entende, viaja na mesma nuvem... Também gostaria de ter o mega talento dessa ilustradora. Encharquei os olhos de beleza com tanta graciosidade. Beijos e um domingo de sonhos por aí!

Cláudia Mello said...

Oi, Rosana!

Pois é... Estas nossas semelhanças são detectadas vez por outra, né? Outro dia, passeando no seu blog, achei um barato aquela história de passar o dia de pijama, curtindo os presentes de Natal... porque sempre fiz isso desde criança! Depois de mais velha e de começar a trabalhar, mais ainda! Poder ficar em casa curtindo o momento... Muito bom.

Pode ter certeza que eu te entendo! :-))) Sabe, comecei a fazer terapia e venho percebendo que existe um ser que foi criado para atender demandas externas (creio que internas tb, eu precisava me sentir aceita). Então, acredito que 90% das pessoas que me conhecem, incluindo a família, tem certeza que eu sou: extrovertida, acho tudo fácil, me relaciono com os outros de forma tranquila, sou comunicativa, sociável, "cuca fresca" (termo que meu ex marido usava para me descrever), decidida, valentona, cheia de personalidade. Mas, na verdade, isso tudo foi construído para que eu pudesse "sobreviver" a uma série de coisas. Eu me construí assim, entende?

Hoje, estou em um processo de descobrir quem, realmente, eu sou. Aliás, não por coincidência, hoje eu assisti "Coraline" (vc viu?) e a personagem principal me lembrou muito eu mesma quando criança: uma falsa imagem de valentona, madura e independente para esconder um poço de sensibilidades.

Talvez, meu maior talento seja a incrível capacidade de adaptação e auto-preservação, a ponto de começar a me confundir com meu personagem! rs

beijos, minha irmã sonhadora! :-)

Marcia said...

Oi Claudinha! Vim te visitar aqui na sua nuvem! rsrsrsr

O processo terapêutico é muito legal né? Quando a gente começa a descobrir quem NÃO somos..não é muito agradável..mas depois vai ficando tão legal, sobretudo na parte em que nos apaixonamos por essa criatura(que somos), e começamos permitir que ela viva!!

Recentemente, também descobri ,que os melhores momentos da minha vida de menina, foram vividos dentro de um quarto na casa de minha vó paterna..aonde eu lia, coloria, pentenava cabelo de boneca e montava quebra-cabeça..simples assim..acontece que minha vó me deixava em Paz. E isso não tem preço.

E por tabela, descobri que todas, TODAS, as minhas brigas na vida foram para tentar recuperar esse quarto, externa ou internamente.

Me dei conta disso , quanto vi que hj a minha casa É ISSO!!

Beijo grande Cláudia, muito legal essa coisa de fazer terapia. E todo o Via vai junto..kkkk

Pensando bem..acho que o Via não é um Blog, é uma espécie de kombi de "Pequena Miss Sunshine"... a família se desloca em bando...kkkkk

Nancy Passos said...

Bom dia, Onírica!

Querida, você está abrindo um clube? rs...

Olha só, sou apaixonada pelo trabalho desta moça, http://www.flickr.com/photos/annejulie/

Pergunto, como você fica ou ficou, quando as duas partes estão brigando por espaço? Acredito que estou num período desses, tenho vontade de sair correndo gritando....acho que uma das partes está tentando expulsar a outra rs...

Beijinhos,
Nancy

Cláudia Mello said...

Marcita,

Hoje vejo que passei boa parte da minha vida sendo preconceituosa em relação à terapia (um absurdo, levando-se em conta que eu trabalho com um tipo de terapia através do tarot). Talvez eu acreditasse que fazer terapia era sinal de que eu fracassei em lidar com meus próprios problemas e o mais louco é que se meus clientes de tarot pensassem assim, bem... eu não teria clientes! rs

A verdade é que devemos nos cuidar com muito amor e carinho, seja da forma que for! E neste momento eu preciso de um terapeuta. E quer saber? Está sendo maravilhoso! Poder falar tudo que penso e sinto sem ser julgada e sem ofender a outra pessoa (levando-se em conta que ela não possui vínculo afetivo comigo e, portanto, ela não vai entrar na minha curriola de reclamações...rsrsrs) Além disso, tem algo mágico e misterioso na terapia, que ainda não compreendi completamente. como Freud dizia o ato de falar já faz com que o processo aconteça. E é incrível! Eu falo com ela e após a sessão eu estou totalmente diferente. E não sei porque, não sei o que acontece, só sei que melhoro.

Amém! Que continue assim! ;-)

beijos!

Cláudia Mello said...

Nancy, comadre querida

Parece que, sim, o clube está sendo aberto, e que já vamos "iniciar os trabalhos"...rsrsrs

Lindas as imagens!!!! Já fui lá bisbilhotar!

Em relação a sua pergunta, acho que sempre estive acostumada a lidar com opostos dentro de mim. Inclusive, meu mapa astrológico tem Marte na casa 1 em Escorpião em oposição a minha Lua em Touro na casa 7. Ou seja, Marte diz: eu quero liberdade, sair por aí sem dar satisfação, ser 100% individualista, não espero ninguém vou seguindo pra onde der na telha. Enquanto isso a Lua fala: "eu quero uma casa no campo, onde eu possa compor muitos rocks rurais" hahahahahah! ela quer família, quer casamento, quer casinha aconchegante e segurança.

Certa vez uma astróloga, vendo este aspecto do meu mapa me perguntou:

- Mas como resolve esta Lua com este Marte???

E eu respondi:

- Eu não resolvo!!!!!rs

Enfim... Já dizia Cássia Eller, não tem explicação não tem, não tem... ;-)

A gente vai levando como pode!

super-beijo

Flora Maria said...

Quando sairá "seu livro"? Ou seus livros, de temas diversos, e deliciosos de se ler ?

Beijo